VEMAG: uma fábrica que agoniza no tempo
Artigos, Bairros, Cidades, Fábricas, São Paulo, Tipo, Vila Prudente, Zona Sul, Zonas — Por SPA em dezembro 23, 2009“BRASILEIROS PRODUZINDO VEÍCULOS PARA O BRASIL”

Texto: Glaucia Garcia de Carvalho
Colaborou: Daniel Granja
Há algum tempo, nasceu uma nova tendência de abandono: o de patrimônio industrial. É um tema que deve ser estudado com mais afinco. É só ir aos chamados bairros operários que podemos ver diversas indústrias fechadas como o Leite União no Pari, a empresa de borrachas Orion e Cotonifício Paulista, ambas no bairro do Belém e algumas filiais das Indústrias Reunidas Francisco Matarazzo espalhadas por toda São Paulo. Isto sem contar as que foram recentemente demolidas, como o Açúcar União, na Mooca.
O patrimônio industrial consiste em valor social, arquitetônico ou patrimonial. A representatividade histórica da indústria para a cidade e o desenvolvimento da sociedade através da sua localização, são pontos essenciais para pedido de tombamento do imóvel.
Um bom exemplo de patrimônio industrial abandonado é a antiga fábrica de automóveis DKW-Vemag. Com um olhar saudoso, os amantes dos motores dois tempos relembram a trajetória dos Candangos, Vemaguetes, Fissores e Belcar, esse último sendo a preferência entre os taxistas da época.
A antiga fábrica (ou o que restou dela) foi construída em uma área de 1.091.500 metros quadrados no início da década de 40. Com uma arquitetura audaciosa foi um dos maiores impérios automobilísticos brasileiro até a década de 60. Está situada na Rua Vemag, 1036 no bairro de Vila Prudente, às margens do rio Tamanduateí. Muito próximo do Ipiranga, bairro que foi palco de um dos maiores acontecimentos de nossa história: O grito de Dom Pedro I proclamando a Independência do Brasil. Hoje quem grita e esforça-se para ter a história da Vemag preservada são os entusiastas zelosos, representados por vários proprietários de veículos e membros de clubes como o Três Cilindros.
HISTÓRICO
A Vemag iniciou suas atividades em 1945, sendo no início uma distribuidora dos automóveis Studebaker inclusive sendo esta sua razão social. Esta empresa automobilística montava e distribuia para todo Brasil veículos das marcas, Massey Harris, Studebaker, Ferguson, Kenworths e Scania Vabis.

Vista aérea da fábrica, em seu auge.
Na década de 50, o Brasil estava passando por diversas transformações políticas tendo como presidente Juscelino Kubitschek com o seu famoso lema “cinqüenta anos em cinco”. Isso se refletiu na indústria automobilística, pois seu governo criou o Grupo Executivo da Indústria Automobilística (GEIA) e a Vemag foi a primeira fábrica que se beneficiou dos incentivos fiscais para a implantação de empresas de automóveis
O lema da Vemag era: “BRASILEIROS PRODUZINDO VEÍCULOS PARA O BRASIL”. A frase entrou para a história da indústria automotiva nacional, pois em 19 de novembro de 1956 era apresentada ao povo brasileiro a camioneta (ou perua) DKW-Vemag Universal, uma cópia do modelo fabricado pela Auto-Union, na Alemanha. Foi o primeiro veículo genuinamente nacional pelos parâmetros do GEIA, que não incluiu o Romi-Isetta, pois para ser considerado um carro de passeio o carro teria que possuir o mínimo de duas portas e quatro lugares
Em 1958 foram lançados o Jipe DKW-Vemag, posteriormente chamado Candango, o carro de passeio, posteriormente chamado Belcar e uma nova versão da camioneta DKW-Vemag, posteriormente chamada Vemaguet. Em 1964, a DKW Vemag faz uma grande inovação: lança um modelo diferenciado e avançado para sua época. O DKW-Vemag Fissore, usando a base mecânica do Belcar mas com carroceria desenhada e desenvolvida na Itália. Seu design inspirou os BMWs do início da década de 70.
O FIM
A Vemag teve um papel fundamental na história automobilística brasileira. A fábrica chegou a ter cerca de 3.500 funcionários em 1967, ano que teve suas atividades encerradas.
Na Alemanha em 1964, a Volkswagen comprou da Daimler-Benz metade de suas ações tornando-se um dos proprietários da Auto-Union, gerando uma grande preocupação para a Vemag quanto a renovação da licença para fabricar carros DKW. A Vemag resolveu reagir fazendo contatos com a Peugeot, Citröen e até mesmo a Fiat, mas nenhuma teve resultado positivo. No ano seguinte a Volkswagen acabou comprando a outra metade das ações tornando-se única proprietária da Auto-Union.
Em novembro de 1966, Lelio de Toledo Piza, presidente da Vemag, declarou a imprensa oficialmente que a Vemag associava-se a Volkswagen do Brasil. Ninguém sabia ainda, mas a Vemag estava partindo para o seu fim.
A Volkswagen do Brasil em setembro de 1967 assume a Vemag e também o compromisso de que não encerraria a produção dos seus automóveis, porém, seguindo uma tendência mundial a empresa alemã retirou do mercado os famosos motores dois tempos.
Após o encerramento da produção de veículos DKW, a empresa alemã continuou com a produção de componentes para abastecimento do mercado de reposição. Instalou seu departamento de desenvolvimento no antigo parque industrial da Vemag onde foram desenvolvidos alguns de seus futuros veículos: Brasília, Passat e até mesmo a primeira geração do Gol. A Fábrica 2 Volkswagen, como passou a ser conhecida, ocupou as instalações da Rua Vemag até a década de 80
A DECADÊNCIA DO LOCAL:
Sua instalação atual é o reflexo do descaso do patrimônio industrial brasileiro. A antiga fábrica que tanto brilhou no passado hoje agoniza em meio ao entulho e passa despercebida diante dos olhos da multidão que utiliza diariamente a estação de trem Tamanduateí, antiga Parada Vemag e o Shopping Central Plaza construído em uma grande área do complexo industrial margeando o rio Tamanduateí e a Avenida do Estado.
O que restou da fábrica foi o prédio principal onde residia o complexo administrativo e a linha de montagem. Suas portas e janelas foram emparedadas. Ruínas são uma realidade neste finado espaço automobilístico e futuras instalações da estação Tamanduateí do metrô.
A Vemag é uma herança patrimonial e é o reflexo do descaso público perante o abandono do imóvel.
O que resta é fazer uma viagem ao tempo. Em 2006, em comemoração aos 50 anos do lançamento do primeiro veiculo genuinamente brasileiro, a camioneta Universal DKW-Vemag, os vemagueiros reuniram-se em frente da antiga fábrica e relembraram a trajetória da indústria automobilística que nunca vai ser esquecida, mesmo correndo o risco de ser demolida a qualquer momento.
No sentido ao contrário que acontece no Brasil, a antiga fábrica da Auto Union, atual Audi com sede na Alemanha, cidade de Ingolstad, possui um museu com toda a história da marca, inclusive constando em seu acervo um modelo de fabricação brasileira. Reflexo de um país que sabe preservar e respeitar a memória automobilística.
Veja abaixo fotos atuais da antiga DKW-Vemag (clique para ampliar):
Confira o mapa do local:
Visualizar São Paulo Abandonada em um mapa maior




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14 comentaram
é, como está, e sendo um prédio relativamente moderno sem muitos atrativos a não ser o histórico, a tendência é ir para o saco mesmo. Não sei o que se passa hoje, mas pelo visto a tendência é construir mais um pombal de luxo por aí. Mais gente para afundar de vez a infraestrutura precária de SP. Melhor seria fazer um parque e deixar as ruínas, mas sabe quando???
Prezado Ralph,
Não é bem assim. A fábrica foi um marco importante, porque foi responsável pelo primeiro carro fabricado no país, além de ter sido a única ‘genuinamente’ brasileira dessa fase inicial.
A área que ‘restou’ da fábrica é relativamente pequena e poderia ser facilmente restaurada para se transformar num centro cultural, serviço muito carente naquela região.
Abraço
Ari Rocha
(arquiteto/designer)
Prezado Ary,
Concordo.
Veja, esta área poderia abrigar um museu contando á história dos primeiros passos do automobilismo no Brasil, inclusive com a participação do Sr Gurgel.
É uma pena mesmo que uma país como nosso tenha restritata sua cultura e história, eu com orgulho digo, tive um veículo da Vemag!
Abraços
Acho muito importante o trabalho do SPa porque a memória só se perde em definitivo, quando não há registros. Não só essa matéria, mas muitas outras no site, são imagens da minha infância, adolescência e vida adulta, que a nossa falta de vocação para a história, vai transformando tudo em escombros. Nosso senso de progresso ainda tem arraigado o espírito da motoniveladora. Uma pena. Mais uma vez parabéns pelo trabalho.
Eu lembro perfeitamente dessa famosa marca “DKW-Vemag”. Era um veículo tido como o mais econômico em termos de consumo de combustível. Cheguei a pensar em adquirir um desses veículos, mesmo porque era de um visual chamativo. Infelizmente a Volkswagen botou um final melancólico, ficando apenas a lembrança. Só consegui adquirir meu primeiro veículo em 1968. Advinha: Isto mesmo, um volkswagen ano 1966 (usado mesmo). Quanto ao imóvel em que funcionou a fábrica, o destino é incerto, Esperemo para ver!
Complementando:
Seria uma forma de Governo do Estado e Prefeitura praticarem, a política de inclusão que eles tanto ‘alardeiam’.
Parabéns pela matéria! Fiquei sabendo pelo blog do Flávio Gomes. Uma aula de história factual, com fotos de diversos matizes, googlemap, vocês estão de parabéns! Na Zona Norte, a construtora Goldfarb está PAPANDO tudo quanto é fábrica antiga, para construir seus pombais nem de tanto luxo assim, populares mesmo. Indaguei à construtora pela sustentabilidade ambiental dos projetos e, alguém teve resposta? Eu também não. Abraços! Ótimo 2010!!
Muito boa matéria , clara , enxuta e direta com referências precisas . Legal !
Sou suspeito pra falar , pois sou um apaixonado por DKW mas , qualquer coisa tipo centro cultural , museu , faculdade ou algo similar , já valeria a pena ! São Paulo tá muito inchada , precisa parar e ponderar ! Valeu !
Vale lembrar que o nome da empresa holding do Grupo Matarazzo é S/A Inds. Reunidas Fábricas Matarazzo e não Francisco como costumeiramente costumam apresentar, e quanto ao abando do patrimônio industrial na cidade é uma constante decorrento do processo de desindustrialização da Região Metropolitana de São Paulo que acontece desde a década de 80 tendo sido alavancado na década de 90 e anos 2000.
Muito triste esse abandono. Trabalhei na parte administrativa dessa suntuosa fábrica. Com apenas 16 anos era secretária da seção de contabilidade. Infelizmente, o que poucos sabem, a fábrica estava sempre no vermelho. Presenciei o lançamento do Fissore, carro genuinamente brasileiro, que teve vida curta. Foi um meio de se livrar dos pesados royalties dos demais carros da linha. Como tudo que ameaça o “bem-estar” dos grandes, o Fissore — de linhas arrojadas para a época — não prosseguiu.
O hipermercado WallMart está próximo da Vemag e quando passo por lá, confesso que sinto uma grande tristeza.
Como tudo no Brasil, não se dá valor ao que é brasileiro e à conservação de nossa memória. Que pena!
Tudo o que foi escrito, eu assino em baixo. Gostaria de saber se o Antonio Madela. é um ex companheiro de SENAI, Rua Roberto Simonsen no Bras. anos 1954-55-56.
Mário Lopomo mlopomo@uiol.com.br
Parabéns mesmo pela relíquia relembrada, lembro-me perfeitamente dos veículos, até porque comprei um dkw, que pertenceu ao meu irmão mais velho e rodou dez anos na praça, era um modelo 1961, rodou 450.000 km sem precisar de retífica, só aquela manutenção básica, excelente máquina. Quanto ao descaso do patrimônio histório, o industrial é só mais um, pois entra e sai governantes e são farinha do mesmo saco, aconselho a lerem o livro revolução dos bichos, é igualzinho ao Brasil e esses pelegos ora do PSDB, PT, e o mais prostituto de todos o PMDM.
Se fossem só um por cento do que foi a Vemag do Brasil em termos de funcionamento, seriamos a maior nação do mundo.
Desculpem-me, mas tenho que desabafar.
O ideal seria o local abrigar um Museu do Automóvel Brasileiro …
Mas é mais fácil voltar a sair Vemaguete 0km de lá do que a área se transformar em museu de automóveis …
Vai virar prédio de apartamentos com quartos de 2,70 por 2,30 para serem pagos em 120 prestações … Ah, e com garagens que mal cabem Fiat Unos ….
Abraços
Senhores!
Ontem me deparei com este artigo no site, por mim já na coluna meus favoritos,há algum tempo.Parabens pela matéria e pelas fotos em arquivo e as atuais.Moro próximo, na Vila Prudente, há 23 anos.Vi eu e minha familia, a derrubada da antiga fabrica Vemag/Volkswagen e a construção do Shopping Central Plaza em pouco mais de 2 meses.Moro em um apartamento na rua Ibitirama, proximo a padaria Cepam(pra quem não sabe, é a fabrica dos panetones Village)e ele o apto. fica de fundos no condominio e eu vejo diurtunamente o shopping inteiro. Qando vamos ao shopping fazer compras ou mesmo no Vall Mart,e entro pela entrada da rua Guamiranga, meu filho, sempre me pergunta, sobre o predio abandonado das fotos. Papai que prédio feio é esse?E eu respondia aletóriamente…sei lá, é uma antiga fabrica em ruinas.Mal sabia vendo a reportagem do site que era a fabrica da antiga Vemag. Pois bem,essa area toda, foi comprada, creio eu, pela Volkswagen, lá pelos idos de 1968/69.Bem,quando foi construido o shopping, será que este, comprou a area toda ou so comprou a area que foi construido o shopping?Isso é uma coisa, para se verificar, com quem ficou aquela area com o shopping ou com a Volkswaguen.Queridos proprietários do site, investiguem essa probabilidade de quem pertence essa area e quem sabe exista interesse da parte deles em se construir alguma coisa de educativo na area, já tão degradada.Aquela idéia dos colegas em se fazer um centro cultural ou até mesmo um museu do automovel, seria muito bacana e valorizaria a area de entorno do shopping, com a futura estação do metro, no local.
Abraços.